Repórter Aéreo 2
Memórias de um Repórter 2
Da paixão de Voar
A profissão de repórter tem seus momentos atrozes, mas me permitiu realizar alguns sonhos de infância. Um deles - voar de helicóptero. Fui repórter aéreo de uma das rádios de jornalismo com maior audiência na capital paulista durante um ano e meio.
A experiência era fascinante. Apesar de, com o tempo, ter perdido o friozinho na barriga das primeiras viagens, a curtição de cada decolagem, e o alegre pensamento "lá vamos nós" sempre esteve presente. E eu me divertia ouvindo as histórias dos pilotos, conversando e descobrindo algumas coisas. Exemplo:
Um helicóptero, se ficar sem gasolina, por exemplo, durante um vôo, não despenca lá do alto. Os pilotos são treinados desde os primeiros momentos a fazerem uma manobra chamada "Auto-Rotação", que nada mais é do que posicionar as pás para que girem sozinhas com a força do vento. Isso cria uma espécie de "pára-quedas" que ajuda a descer a máquina com certa tranqüilidade. Mas claro que não é possível ganhar altura neste procedimento, e é preciso ficar de olho em algum lugar descampado onde será possível pousar. Por isso os pilotos não gostam muito de sobrevoar o "paliteiro" do Minhocão, por exemplo... uma região com muitos prédios e nenhuma área livre para pousar em caso de emergência.
Nos primeiros vôos eu administrava o nervosismo olhando para os inúmeros helipontos que se vê no topo dos prédios lá do alto. São Paulo tem um sem número deles. Achava que em caso de emergência, lugar para pousar era o que não faltava. Até que um dia um piloto me contou que em caso de emergência a última coisa que ele iria fazer seria tentar "acertar o alvo" de um heliponto no topo de um arranha-céu em meio ao vento.
Também crescemos achando que helicóptero pode pousar em praticamente qualquer lugar. Na teoria é verdade. Na prática os pilotos não pousam no meio de um campo de futebol, por exemplo, se bem entenderem - cada movimento desses precisa ser notificado à rede de tráfego aéreo da cidade, e seria necessário justificar muito bem justificado o tal pouso. O que não quer dizer que não ocorra de vez em quando.
Sabendo de minha paixão pelo vôo, vivi boas aventuras com um dos pilotos com quem voei por mais tempo. Dávamos razantes sobre a água da represa de Guarapiranga, pousávamos em ilhotas perdidas no meio do Rio Tietê e cruzávamos o trecho de serra das rodovias Anchieta/Imigrantes, uma sensação, aliás, quase indescritível.
Nossa altura média de vôo era de 150 metros do solo dentro da cidade. Mas na serra, de onde víamos o mar à distância, era possível cruzar a "interligação" e andando mais um pouco nossa altura era gigantesca... era possível ver toda a extensão das três estradas (na época não havia o trecho novo da Imigrantes) e o helicóptero pequenino lembrava mais ainda uma pequena mosquinha voando alto, bem alto...
Foi na volta de uma dessas aventuras que eu percebi qual a paixão que faz uma pessoa decidir pela profissão de piloto. Depois de tanto voar, eu sabia que era arriscado se enfiar no meio das nuvens, por exemplo. Sem horizonte artificial, já que os helicópteros de pistão como o Robinson não tem aparelhos para fazer "vôo cego" (por instrumentos), o perigo é perder a relação com o solo e inclinar demais o aparelho, jogando ele direto para o chão. Mas naquele dia meu amigo estava apaixonado pelo céu. E como Ícaro, queria ir além.
Sobre a rodovia Anchieta à caminho do bairro do Sacomã, início da estrada, o piloto começou a olhar fixamente para um ponto no alto, sem conseguir piscar. Eu olhei para ele, que tinha os olhos vidrados: "podemos entrar ali..."
Em instantes, ele conduziu o pequeno aparelho até uma "janela" no meio das nuvens. Pouco depois, estávamos voando acima da altura das nuvens... e em instantes estávamos rodeados delas. O piloto parecia estar em conferência com Deus, tamanha a alegria. A visão era bonita mesmo... mas eu tremia de medo olhando para a "janela" entre as nuvens, com medo que fechasse. Se acontecesse, seria arriscado demais voltar a descer.
Sorte que ele acordou do transe à tempo.


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