Outdoor
O rapaz passava todos os dias em frente àquele outdoor. Não que estivesse interessado na cerveja do anúncio, que ele aliás nunca tinha experimentado. Interessado mesmo ele estava na loirinha. E que loirinha!
Linda. E não fazia aquele estilo “mulherão”. Era apenas um rostinho bonito, no meio do anúncio - mas que sorriso! - pensava ele. Franco, aberto, meigo, cativante. Estava apaixonado.
Á caminho do trabalho passava todos os dias pelo outdoor e, enquanto o sinal não abria, olhava, suspirava e sonhava... E desfrutava cada momento de sua paixão por sua musa. Quando finalmente a luz verde o autorizava a seguir, titubeava alguns instantes até engatar a marcha - tempo suficiente para que os carros de trás buzinassem para que o sonhador despertasse. Mas ele, recusando-se a abandonar o sonho, respondia com alguns suspiros, e finalmente acelerava, levando um gostinho de “quero mais”.
O tempo foi passando até que um dia, para desilusão de nosso protagonista, o cartaz foi substituído por um outro anúncio qualquer, que ele fez questão até de nem saber de que se tratava, só por birra.
E a partir daquele dia, passou a chegar ao trabalho um tanto mais desolado. Até que resolveu conversar com um amigo, um publicitário de uma famosa agência de propaganda, sobre sua paixão.
Como era um happy-hour, e ele já estava sofrendo os efeitos dionisíacos do álcool, confessou tudo:
“Rapaz, aquela sim é a verdadeira paixão. Veja você! Que sorriso, que carinha linda. Seus colegas estão de parabéns. Acertaram em cheio. Aquela porra da cerveja mesmo, eu nunca tomei. Mas que mulher foram me arrumar, meu Deus. Que coisa linda!”
E assim prosseguiu contando ao amigo todos os seus sonhos mais encantados de amor eterno pela modelo do cartaz.
Só que, por uma daquelas coincidências inexplicáveis da vida (que aliás, normalmente, convém nem tentar explicar mesmo), numa virada do destino, o amigo publicitário conhecia o pessoal daquela agência que criara o cartaz. E, sem dizer nada, preparou-lhe uma surpresa.
Alguns dias depois, o rapaz recebia num envelope algumas fotos de sua amada. E eram fotos daquelas amadoras, com a menina em poses descontraídas, naturais, sem aquela maquiagem ou produção toda.
O jovem apaixonado entrou em êxtase, e espalhou as fotos pela parede do quarto. Logo, sabia de cor cada milímetro das imagens e, ao fechar os olhos, já era capaz até de enxergar todos os detalhes delas minuciosamente.
Eis que noutro dia vem o amigo mais uma vez trazendo-lhe uma nova surpresa. Conseguira conversar com a modelo da foto e contar a ela, com detalhes que só mesmo um publicitário saberia ressaltar, que sabia de um cara apaixonado por ela, “um cara muito bacana, ótimo sujeito”. Como a moça deixou transparecer um leve interesse pelo seu admirador, o publicitário tratou de pedir-lhe o número de telefone. E era este número que vinha cair agora como um presente às mãos do rapaz apaixonado.
Ele, assim que chegou em casa, correu ao telefone e passou quarenta minutos com o aparelho na mão, pensando no que iria dizer ao ligar para ela (era tímido mesmo, o coitado). Por fim, conseguiu teclar os números.
A moça atendeu, e ele logo estranhou a voz, que não era tão doce quanto ele imaginara. Identificou-se e começou a tentar engrenar um papo. A conversa não parecia correr muito solta, mas ele afinal convidou-a para sair.
Ela aceitou, só que escolher o lugar foi algo realmente difícil, diria até decepcionante. Ela não gostava de bar com MPB, não curtia vinho e só gostava de lugar agitado. A moça sugeriu dançar, mas isso era algo que ele não suportava. Sair para jantar, tampouco, foi impraticável. Não tinham os mesmos gostos. Cinema, então, quase deu discussão - ela só sugeria títulos hollyw-odianos, e ele só gostava de cinema “cabeça”, na opinião dela. Por fim, não conseguiram combinar nenhum programa por absoluta incompatibilidade de gênios.
Despediram-se e ele desligou o telefone, amassou o número que tinha às mãos e jogou-o no lixo. Olhou para as fotos dela na parede e deu um longo suspiro, com saudade do tempo em que sua musa era apenas uma imagem no outdoor. E ele podia amá-la em paz, sem que a realidade interrompesse os sonhos.


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