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Local: São Paulo, SP, Brazil

29.9.04

Ah, calma !

por José Eduardo Marcondes

Aquelas férias em Porto Seguro foram inesquecíveis. Fui sozinho, tive que deixar até mesmo a família para trás. Eu estava meio estressado e precisava de um tempo para mim.Como era fora de temporada a maioria das atrações turísticas não estava em operação e era difícil conseguir planejar algum programa com antecedência. Numa tarde qualquer, andando pela praia, fiquei observando os barquinhos de pesca, que se misturavam multi-coloridos numa imagem bonita de se ver. Eu não sabia bem pra que tipo de pesca serviam, um diferente do outro. Se bem que por mais diferente que fossem, me pareciam iguais.Quando eu passava em frente à vila dos pescadores, meus olhos se fixaram em um pequeno barco à vela, bastante rústico e um tanto exótico. Voltei-me de costas para o mar, em direção à vila dos pescadores. Um velho negro, com cabelos muito brancos e muito enrugado limpava um peixe sobre uma pequena mesa de madeira. Me aproximei e perguntei pelo barco:- “Com licença, você sabe quem é o dono daquele barco ?” – apontei na direção do mar. O velho sorriu um sorriso desdentado e respondeu afirmativamente. “É de meu neto. Espere um pouco que eu chamo ele pra você” – e se levantou vagarosamente, caminhando pé-ante-pé até um dos casebres. Fiquei aflito ao vê-lo andar tão lentamente, mas tive pena ao ponderar que ele já devia ser muito, muito velho. Devo ter esperado no mínimo meia hora, até que um rapazote mulato saiu sorridente do barraco onde o velho entrara. Aliás, o rapaz era parecidíssimo com o avô. Eu já tinha certeza de que era ele quem eu procurava. Aproximou-se de mim e perguntou - “O Sr. mandou me chamar ?”“Sim. Quero saber se você pode me levar para dar uma volta em seu barco. Não sei se você costuma fazer isso, mas eu lhe pagarei bem” - respondiEle foi humilde - “O senhor guarde seu dinheiro e deixe os chinelos aqui. Podemos ir já...”Entramos no pequeno barco que tinha uma enorme vela, uma adaptação grotesca que mais parecia uma jangada. Perguntei ao mulato aonde poderíamos ir. Ele respondeu com desdém - “Sei lá, aonde a maré e o vento nos levarem” Não gostei da resposta mas, enfim, como eu estava ansioso pelo passeio deixei por isso mesmo. Começamos a nos afastar da praia e logo a orla se via ao longe. O rapaz começou a puxar conversa:“O senhor é de São Paulo ?” - Respondi afirmativamente, e ele prosseguiu - “Deve ser muito rico, importante, não é? Logo vi! A sua gente é sempre assim, ansiosa, aflita, querendo saber aonde está sendo levada...” Achei o rapaz um tanto abusado, mas fui deixando ele falar - “... e o Sr. veja só, que diferença nos faz, saber aonde ir. Eu poderia ter dito que iríamos àquela ilha, mas de repente poderia chover e não chegaríamos lá.”“E daí?” - interpelei.“Daí que o senhor certamente sairía de meu barco me cobrando coisas, dizendo que eu não cumpri o que lhe prometi. O senhor certamente sairia dizendo a todos que eu não cumpro minhas promessas, o que lhe daria um certo orgulho, pois estaria falando mal de minha competência. E isso ia fazer você se sentir melhor que eu.”“Você é louco?” - Perguntei, já perdendo a paciência.“Não senhor, é que conheço a sua gente... estou dizendo! Vêm muitos turistas por aqui. Você mesmo, por exemplo, veja só. O mar está calmo, um verdadeiro lago, o vento está soprando gostoso e devagar. Mas você não parou de balançar as pernas desde que saímos da praia. E até agora não relaxou, pois também muda de lugar o tempo todo, procurando uma posição” - Fiquei estarrecido, pois o danado tinha razão - “como estou dizendo pra o senhor, sua gente é muito aflita. Não há como ser mais que o mar e o vento, não senhor. Pelo menos não em um barco como este. A gente tem que sentar, relaxar e se deixar levar.”Comecei a me interessar - “E porque você está me dizendo tudo isso?”“Eu sempre penso nisso, quando vejo um como você. Deve ser ruim viver na sua cidade, não é não? Eu não posso entender alguém que queira apressar a vida, ou o ritmo do vento. Mais vale deitar aqui e deixar o sol, gostoso, relaxar o corpo e dar energia.”Deixei-o falando sozinho e comecei a pensar. Lembrei de mim agoniado no trânsito de São Paulo, socando o volante e gritando palavrões quando nada andava. Vi minha própria imagem, sempre aflito com meus horários, minhas reuniões, com tempo contado, tentando o dia inteiro dominar o tempo para ter um desempenho acima da média. Percebi o quanto sou capaz de passar por cima de mim pelo meu trabalho. Perguntei a mim mesmo se era necessário tanto esforço, ou se aquilo poderia ser uma criação minha, um truque meu que fizesse sentir útil, quando na verdade eu só estava tentando ser sempre mais do que sou. Lembrei do choque que tive no consultório do médico quando ele avisou que eu estava com a pressão muito alta e a taxa de colesterol descontrolada. Naquele momento, foi como se eu ouvisse novamente a voz ríspida do doutor quase me ameaçando ao recomendar umas férias em algum lugar relaxante, como uma praia, se não... Procurei os casebres de pescadores na paisagem, lembrando do avô do rapaz. Velho, muito velho, como muitos velhos eu já vira naquela cidade. Imaginei que tipo de dieta pobre em glúcides e outras idiotices teria feito aquele homem para chegar àquela idade. Imaginei-me velho, com as calças puxadas até o joelho, limpando um peixe na madeira, magro, com a pele curtida de sol, como aquele ancião. Olhei de novo para o barco e fiquei observando o mulato, que ainda falava sem parar. Nem ouvi o que ele ainda dizia, mas comparei o corpo dele ao meu. Lembrei de quando era jovem, e tive vergonha ao perceber o que fizera a meu próprio corpo. Gordo, branquelo, com uma conta bancária alta, mas tão alta que não me permitia sequer um minuto de tranqüilidade como eu sonhava que teria no princípio. Eu lembro quando eu pensava que, tendo bastante dinheiro, eu poderia relaxar, curtir a vida, gozar os anos perdidos. Mas até ali, com os filhos no colégio querendo sempre mais e mais, a mulher pedindo novidades, reformas na casa, etc... eu mesmo já não podia dizer até que ponto estava envolvido com tudo aquilo, se por vício ou necessidade. Descobri que eu era agora um cara sempre agoniado, viciado em ganhar cada vez mais e mais, e em aplicar meu dinheiro para nunca o perder, o que me cobria de preocupação. Sempre atento aos movimentos da ciranda financeira, minha vida era estar grudado a um telefone agendando compromissos, dando ordens de compra e venda e bolando o melhor jeito de duplicar meu patrimônio. “Vamos saltar” - o mulato repetiu, me ‘acordando’ de meus pensamentos. Olhei para ele ainda meio assustado. “Venha!” - ele convidava, já com os pés na areia da pequena ilhota que me apontara como exemplo pouco antes. Saltei do barco perdendo o equilíbrio, e quase caí quando pisei na areia fofa. O rapaz não perdeu a chance:“Rárárá. Não, não, tem que deixar o corpo mais mole, se não cai mesmo!”Começamos a andar sobre a enorme pedra que formava a ilhota. Meus pés estavam queimando e eu só pensava nos chinelos que eu tinha deixado lá na areia antes de subir no barco. Meu guia subia rápido por entre as pedras, e andava decidido sobre as conchas que me doíam e arranhavam os pés. Cheguei ao topo da ilha e ele já estava sentado, admirando alguma coisa que eu só pude descobrir ofegante, depois de vencer aquela subida. A visão era linda. As ondas do mar invadiam a outra ponta da ilhota e subiam sobre uma planície cheia de pequenas pedras, cobrindo tudo com um manto de espuma branca. O cheiro de maresia subia forte, e quando cada onda ia embora, dezenas de caranguejos corriam pelas pedras. As conchas de mexilhão brilhavam ao sol, um espetáculo da natureza.“Não é lindo?”- perguntou o mulato, entusiasmado. Não pronunciei a resposta sim. Fiquei só sentado ao lado dele, observando. Não sei quanto tempo ficamos ali parados sob o sol forte, observando aquele espetáculo tão cotidiano à natureza. Sem falar nenhuma palavra, parecíamos dois bobos, duas crianças maravilhadas com um novo presente. Era a primeira vez que eu visitava aquele lugar, mas o rapaz parecia sentir a mesma alegria que eu. Como adivinhasse meus pensamentos, ele começou a falar - “Por mais vezes que eu já tenha visto isso, não consigo parar de me emocionar. É muito bom ficar aqui em cima, vendo esse marzão lá embaixo. É sempre igual, e sempre novo. Não importa o quanto a maré mude, a água nunca deixa de cobrir a pedra.”Depois de muito tempo deixamos a ilha e voltamos à praia. Eu trazia no peito uma paz muito grande. Meu coração parecia relaxado. No dia seguinte prossegui minha viagem por outras cidades do nordeste, mas nunca esqueci daquela imagem. Alguns dias depois, voltei a São Paulo como um novo homem.No trânsito, quando está tudo parado, passei a ficar pensando naquelas ondas. Durante o dia, parei de correr contra o tempo e passei a deixar que o próprio tempo me leve, qual o mar e o vento levam um barco. Deixei de pensar tanto no dinheiro por ganhar e me aproximei mais de minha família. O médico, admirado, me deu alta ao ver minhas taxas controladas e minha pressão de volta a níveis normais. Descobri que eu podia continuar sendo bom naquilo que faço sem grande esforço, eu já não precisava mais provar pra mim mesmo que era o melhor. Não haviam novos desafios a serem quebrados além dos meus limites. Por mais que tudo mudasse, haveria de ser sempre igual. E minhas habilidades haveriam de ser suficientes para cobrir as possíveis pedras no caminho. Caso contrário... Ontem, passado mais ou menos um ano desde aquele dia, estive de novo na aldeia dos pescadores, perguntando pelo velho. Algum pescador me deu a triste notícia - “Ah, o senhor chegou tarde. O velho deve ter morrido. Sabe, todos os dias, desde que nós aqui temos notícia, ele ia até aquela pequena ilhota e só voltava muito tempo depois. Mas, há uns dois meses o velho foi e nunca mais voltou. Pouca gente deu pela falta dele aqui na vila, porque era uma pessoa muito solitária, sabe? Vivia sozinho, e mesmo assim não falava nunca com ninguém.” “Ué, como assim vivia sozinho? E o neto dele?” - Estranhei.“Neto? Não senhor, o velho nunca teve neto, nem sequer filhos. Ele sempre viveu sozinho mesmo. Onde o senhor ouviu dizer que ele tinha um neto?”“Não sei, só imaginei” - lancei, como quem lança um barco ao mar.

escrito em 29 de fevereiro de 1996